O Diabo na Aldeia - capítulo segundo

Um conto erótico de alte welt
Categoria: Homossexual
Contém 1397 palavras
Data: 04/05/2013 12:40:09

Doutor Karl Aegydius Eisenschwanz - conhecido pelo povo aldeão simplesmente como Herr Doktor - era um médico competentíssimo e um ser humano verdadeiramente caridoso. Ele houvera recusado os aposentos que lhe tinham sido oferecidos dentro do Velký Hrad, o grande castelo do Conde, e em lugar disto pediu que lhe construíssem uma choupana qualquer do lado de fora dos muros da fortaleza. Assim, além de estar perto o suficiente para atender os nobres do castelo, ele também estava acessível para socorrer qualquer pobre que dele precisasse.

Como o Conde não podia deixar que seu médico de cabeceira vivesse em um barraco, ele ordenou que se erguesse uma bela casa de dois pavimentos, em local visível pelas torres de defesa do castelo, para que seus guardas pudessem proteger o doutor.

Naquela noite, Doutor Eisenschwanz já estava pronto para dormir. Já havia vestido sua túnica-pijama e apagado a chama de sua lamparina de leitura. Foi só levantar as cobertas da cama para deitar-se, que ele escutou batidas frenéticas na sua porta de madeira maciça, acompanhadas de uma voz feminina ansiosa que chamava: "Herr Doktor! Herr Doktor!".

"Schwarzer Tod!", murmurou para si mesmo o doutor, "A peste negra!". Naqueles tempos, todo médico que se deparava com um suplicante por atendimento urgente, já temia pelo pior, a terrível peste bubônica.

Ele abriu a janela do seu quarto, no segundo andar, e viu abaixo de si, na soleira da porta, a bela mulher que clamava por ajuda. Viu também um velho que aguardava sentado em uma charrete.

"Acalma-te, mulher", disse o doutor, "que já vou vestir-me para socorrer-te!".

Ele não podia correr o risco de ser infectado pela peste, pois muitas vidas dependiam da sua própria. Assim, Herr Doktor pôs-se a trajar suas vestimentas de praga: sua longa túnica de linho, sobretudo preto, chapéu de aba larga, botas e luvas grossas, e a peça que ele mais odiava - a máscara passeriforme com o longo bico de corvo. Ele suspeitava ser mera superstição a crença de que a imagem de ave composta por aqueles trajes amedrontaria a doença. Entretanto, apesar de ser um homem de ciência e cultura, o doutor acreditava no misterioso e no inexplicável. Dizia-se cristão, mas cria haver neste mundo mais segredos do que a Santa Igreja ou a medicina podiam revelar.

Desceu as escadas e abriu a porta, deparando-se com a mulher, que imediatamente desatou a falar: "Oh graças a Deus! Herr Doktor, o senhor precisa atender meu filho! Ele está prostrado na cama sofrendo de convulsões! Parece um tipo de epilepsia...".

Naquele instante, o médico não prestava atenção ao que Alzbeta dizia, apenas preocupava-se em examiná-la para ver se não portava sintomas da peste. Ele olhou as mãos da bela, procurando por manchas negras. Fez com que ela desamarrasse o topo de seu vestido e expusesse toda a parte de cima de seu corpo para examinar-lhe as axilas e o pescoço. Ele teve que se esforçar para manter a compostura diante de seios tão majestosos. Por fim, suspendeu-lhe a saia do vestido e arriou-lhe os trajes menores para procurar por nódulos na virilha. Nada encontrou, a mulher estava saudável.

Logo em seguida, o doutor moveu-se em direção ao velho beberrão para examiná-lo também, deixando que Alzbeta recompusesse suas roupas. Ao despir Václav para olhar seu corpo, este protestou: "Ei, não sou eu o doente!". "Pouco importa, senhor", respondeu Herr Doktor, "preciso certificar-me de que não sois vetores da peste!", e conduziu a inspeção à força.

Uma vez que teve certeza da saúde dos dois, o médico disse n'um tom de comando: "Muito bem. Ouvi que há um jovem a debater-se com a epilepsia. Já basta! Vou buscar meu cavalo. Guiai-me à vossa aldeia!". E puseram-se a caminho.

Enquanto Alzbeta e Václav tinham ido em busca do doutor, Pavel tinha permanecido sentado à cabeceira de seu amado Antonín, velando por ele. Os acessos convulsivos tinham cessado e o rapaz doente havia recobrado os sentidos. Sendo indagado do que havia passado, Pavel respondeu a Antonín ternamente: "Shhh, acalma-te, meu anjo... Os tremores atacaram-te, mas já estás a salvo. Tua mãe já vai voltar com ajuda. Aproveitemos este momento para descansar...". Pavel beijou levemente os lábios de Antonín e ficou a acariciar-lhe a testa suada. O convalescente sorriu, exausto, e balbuciou: "Hmmm, meu d'ábel, meu diabo... eu te amo..." e pegou no sono.

Passado um longo tempo, Pavel começou a ouvir o aproximar do som de um rangido de charrete e um trote de cavalo. Ele tirou sua mão da fronte de Antonín, para que não suspeitassem do seu envolvimento. Poucos momentos depois, entravam sucessivamente pela porta da residência Alzbeta, Václav e Doktor Eisenschwanz. Foi só o médico colocar um pé dentro da casa, que os olhos de Antonín abriram-se imediatamente, e ele falou em voz alta e hostil: "PADRE!".

Mas havia algo de muito estranho na voz que pronunciara aquela palavra, além da inflexão odiosa. Parecia o som de duas vozes simultâneas; uma era a típica voz masculina de Antonín, e a outra era uma voz feminina, aguda e áspera, que inexplicavelmente saía da mesma boca. A conjunção delas resultava em um coro demoníaco, dissonante e desarmonioso.

Herr Doktor voltou-se para Alzbeta e sentenciou: "Mulher, este jovem não tem epilepsia alguma. Diagnostico-o neste momento, sem medo de equivocar-me: um demônio habita o corpo deste homem".

A mãe permanecia com a boca aberta, querendo contradizer a acusação ultrajante de que seu filho pudesse estar possuído, mas estava sem palavras face às evidências. Pavel levantou-se da cadeira e recuou. Václav teve um impulso de fugir, mas ficou a espreitar curiosamente, com um pé dentro da casa e o outro fora.

O doutor aproximou-se lentamente da cama, parecendo uma ave de rapina com sua máscara da peste, e, a cada passo seu, Antonín contorcia o corpo e falava palavras soltas naquela voz monstruosa: "VAE, VAE! CRUX! COMBURIT!

Alzbeta perguntou aterrorizada: "O que ele está dizendo?", ao que Herr Doktor respondeu: "É latim, senhora. Ele se queixa do meu crucifixo, que lhe queima!". "Mas meu filho não fala latim, doutor!", disse a mãe. "Seu filho não fala latim, mas o demônio fala. Ele pensa que eu sou padre, por isso dirige-se a mim no idioma da Santa Igreja!".

O médico chegou cada vez mais perto de Antonín, findando por curvar-se sobre o rapaz, de maneira que seu crucifixo pendeu pelo cordão em seu pescoço a poucos centímetros de distância da cabeça do endemoniado. Aquela era uma cruz de São Pedro, forjada em prata de Jerusalém, trazida da Terra Santa por seu bisavô, um cavaleiro cruzado da Ordem Teutônica. O ourives que a fabricara com o metal sagrado tinha sido um monge beneditino, que a havia construído para ser uma relíquia sagrada de exorcismo.

Antonín encolhia-se na cama, como se quisesse escapar entrando pela terra. O que ele recitava em voz dupla ficou cada vez mais incompreensível. O doutor não podia mais distinguir nenhuma palavra em latim naquela confusão dissonante. Ele já não sabia mais dizer se eram apenas urros de agonia, ou a língua dos infernos, criada pelo próprio Lúcifer para falar com seus anjos caídos.

Ele compreendeu que precisava acalmar o diabo a fim de conseguir dele alguma informação útil.

Como sabia que a casa estava livre da peste negra, o médico retirou seu chapéu e sua máscara de corvo. Em seguida, tirou seu crucifixo e entregou-o a Václav, dizendo: "Guarda-o para mim. Fica com ambos os pés para fora da casa. E não roubes!".

Herr Doktor voltou-se para Antonín e propôs: "Conversemos". O rapaz, mais calmo, porém ainda com voz diabólica, respondeu: "Ainda não, padre. Tira a mulher odiosa...". "Que mulher?", perguntou o médico, "Queres que saia a mãe do teu hospedeiro?". "Não, padre, a mulher sem pecado que trazes contigo...", respondeu a entidade.

O doutor se deu conta de que o demônio falava de uma medalhinha de Nossa Senhora que ele sempre carregava no bolso. Seu valor era puramente sentimental, como lembrança de sua mãe. Ele não sabia, até então, que aquele era também um artefato consagrado. Ele entregou a medalha para Václav, lembrando-lhe de que não deveria por os pés dentro da casa.

"Por fim, espírito imundo, discutamos logo pois já estou ficando farto de fazer tuas vontades...", ameaçou Herr Doktor dirigindo-se a Antonín.

Alzbeta, Pavel e Václav nada entendiam do diálogo, pois não sabiam latim. Isso apenas contribuía para aumentar o pavor com que eles assistiam àquele espetáculo infernal...

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Comentários

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Perfeito, amoo contos com histórias assim, parabens !!!!!nota 10000

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Ameii! Amo contos de exorcismo e sobre a era medieval! Seu conto tem tudo que uma simples camponesa como eu possa querer! Estou aguardando ansiosamente o próximo capitulo! BJSS!

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O.O wow, tô gostando (mesmo não gostando dessas coisas de exorcismo pois morro de medo). Estou mega curioso pra saber o que vem por aí

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Aaaaaah! Super empolgado com o conto. Fico ansioso por novos post's.

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